“Vinland Saga”, obra-prima de Makoto Yukimura, consolidou-se como um dos mangás mais influentes das últimas décadas. Recentemente homenageado no prestigiado Festival de Angoulême, o autor revelou detalhes íntimos sobre a criação da série, que explora violência, redenção e a busca por um ideal de paz em meio ao caos Viking.
As origens da saga: dos exploradores islandeses à inspiração bíblica
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A ideia de “Vinland Saga” surgiu na adolescência de Yukimura, fascinado pela história dos Vikings que chegaram à América antes de Colombo. Seu objetivo inicial era abordar temas como escravidão e perdão, mas o editor sugeriu começar com o apelo imediato das batalhas Viking. O conflito entre ação e reflexão moldou a narrativa desde o primeiro capítulo, equilibrando cenas de guerra com questionamentos éticos.
Para recriar o universo de Thorfinn, Yukimura viajou para Noruega, Dinamarca, Islândia e Canadá, buscando autenticidade nos cenários e costumes. A pesquisa incluiu até detalhes sobre reuniões Vikings, onde conflitos podiam eclodir por um simples brinde recusado. A Groenlândia ficou de fora dos roteiros por desafios logísticos, mas a imersão cultural foi essencial para construir a atmosfera crua da obra.
Apesar da mensagem pacifista, “Vinland Saga” é repleto de cenas brutais. Yukimura explica que a violência não é glamourizada: serve para contrastar com a jornada de Thorfinn em busca de redenção. “Mostrar o horror das guerras é fundamental para entender por que ele rejeita esse caminho”, afirma. O autor reconhece o apelo comercial das batalhas, mas reforça que seu objetivo sempre foi provocar reflexão sobre ciclos de vingança.
O perdão e as influências bíblicas na narrativa
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O arco de Hild, que debate perdoar ou não Thorfinn pelo assassinato de seu pai, sintetiza um dos pilares da história. Yukimura atribui essa temática à sua criação, influenciada por referências bíblicas sobre amor e perdão. “Vivemos em um mundo que precisa mais de diálogo do que de conflitos”, reflete, destacando como a obra questiona se a reconciliação é possível mesmo em cenários de trauma profundo.
Com o fim da série se aproximando, o autor planeja uma pausa. “Já explorei o suficiente o gênero histórico”, comenta, sugerindo que seu próximo projeto pode migrar para a ficção científica, terreno que já havia explorado antes de “Vinland Saga”. Apesar disso, não descarta retornar ao universo Viking se surgirem novas perspectivas.
Após mais de 20 anos, “Vinland Saga” deixa um marco na cultura pop, misturando ação espetacular com filosofia profunda. Sua homenagem em Angoulême não apenas celebra o talento de Yukimura, mas também eleva o mangá como uma forma de arte capaz de dialogar com temas universais. Para os fãs, a despedida de Thorfinn não é um adeus, mas a confirmação de que histórias bem contadas são eternas.
Fonte: Le Figaro